Notícias de Botequim

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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Notícias de uma guerra particular (no Estado do Rio de Janeiro) e Morro Santa Marta.

Que Tropa de Elite que nada! Para realmente entender o que acontece nos morros do Rio é essencial assistir a este dois filmes.
Com Notícias de uma guerra particular (realizado por João Moreira Salles, Kátia Lund e apoio de Walter Salles) temos depoimentos das três partes envolvidas: civis (moradores das favelas), a polícia e os traficantes ou trabalhadores do tráfico, o que faz do filme menos tendencioso possível e o torna balanceado, remetendo assim aos que assistem uma constante de deja vu, porque com toda certeza muitos de nós já ouvimos os argumentos usados pelos personagens reais que integram o documentário, produzidas em conversas informais de conhecidos ou declarações oficiais dos governantes, da própria polícia. Com Morro Santa Marta de Eduardo Coutinho gravado em 1987/88 acompanhamos o dia-a-dia destes moradores na tentativa de humanizar e demonstrar que a vida dos civis segue na busca pela dignidade e alegria.
Farei uma resenha crítica sobre o conteúdo, usando recheios meus em ordem cronológica, para melhor compreensão dos caros leitores!
Iniciarei falando sobre o acontecimento massivo da migração para as grandes cidades no processo de industrialização forçada e abrupta pelo qual o Brasil e as cidades grandes passaram com marco na década de 70 chamado de Milagre Econômico, quando o Brasil era a 8ª economia mundial, marcado por um grande crescimento econômico do PIB e PIB per capta, porém, com o aumento da concentração de renda justificado pela velha história do crescer e depois distribuir o bolo, elaborada pelo grande “intelectual” Delfim Neto, da qual o governo fez bastante uso e proveito! Não só dela, mas, outras tantas teorias e modelos que posteriormente mostraram-se errôneas.
O que aconteceu? Com a industrialização e a não realização de políticas agrícolas e reforma agrária para melhorar as condições de vida e trabalho da população rural, este contingente migra para as cidades em busca de trabalho, no entanto, a economia não consegue enxugar o número exagerado de trabalhadores, pois há uma demanda maior que a oferta de trabalho, causando também a diminuição dos salários base, reflexo este que podemos observar até hoje. Pois bem, estes desempregados ou subempregados não têm condições de alojarem-se próximos aos grandes centros pelo custo maior que é atribuído, a saída é a procura por lugares mais afastados, de preferência, por terras sem donos. Começa então a ocupação de terras irregulares localizadas na periferia destes grandes centros. Com este inchaço nas cidades causado pelo êxodo massivo, aumenta o número de famílias e pessoas requerendo seu espaço, gerando o crescimento desordenado das cidades e o que há tempos chamamos de favela, e o governo que mais uma vez não realizou regulamentação e regulação, nem políticas sociais para findar o problema.
Ou seja, com segurança podemos falar que esta é a raiz e, uma das explicações consistentes para a formação das favelas, nos ajudando a acabar com o mito de que quem a habita são só os ladrões.
Pulemos já para o regime militar que na fase citada anteriormente já vigorava no nosso país. Na maioria, os presos políticos eram aqueles envolvidos em movimentos de insurgência ao governo, os opositores e também, os laranjas, os que eram só o vizinho, a mãe, o entregador de jornal, o pai, o tio, o amigo, do realmente “revolucionário” em questão. Na época, estes (revolucionários e laranjas) representavam mais perigo e maior importância em serem pegos e presos dos que os estupradores e assassinos. Acredito que deveriam ser presos em maior quantidade dos que os realmente criminosos.
Para acabar com “os problemas”, uma das táticas era a de misturar os presos políticos com os presos comuns, na expectativa dos primeiros serem mortos pelos segundos lá mesmo.
O que aconteceu foi exatamente o contrário, houve a “doutrinação” dos presos comuns pelos presos políticos, na forma de semear as causas e lutas políticas adaptadas para a realidade dos presos comuns. Estes conseguiram ter contato e o mínimo de orientação para construir uma organização fundamentada e assim segundo o Gordo, um dos traficantes que dá seu depoimento no documentário, nasce o Comando Vermelho com o lema de paz, justiça e liberdade. Afim de “tapar os buracos do governo” expressão usada por ele. Podendo ser esta também, uma das explicações para o termo usado: crime organizado.
No início, pelo que pude perceber no documentário, os grandes traficantes eram respeitados e comandavam os morros mesmo estando presos, porém, lá fora, formavam-se filas de jovens para a substituição destes “chefes”, jovens (sem formação, sem acesso a educação) com ímpeto mais violento e, sedentos pelo status de traficante, criando dentro da favela um respeito maior e uma posição mais importante, alimentando o orgulho destes jovens que se firmam nestas comunidades, que são enxergados pelo seu valor real, não conseguindo o mesmo reconhecimento fora sendo um “profissional” comum, ocupando cargos geralmente de base.
A formação dos organizadores é primária, o que resulta no descontrole e no caos que podemos acompanhar todos os dias na televisão, fugindo assim, dos princípios elaborados pelos traficantes presos em Ilha Grande no RJ na época da ditadura militar com o Comando Vermelho, ou seja, só ficou o título, porque não existe crime organizado e sim, uma guerra particular, como o soldado do próprio BOPE coloca. Uma guerra entre policiais e traficantes. Pode-se até dizer que uma máquina geradora de empregos de ambos os lados. Uma outra colocação interessante que o mesmo soldado faz é que, o único seguimento do Estado que sobe o morro é a polícia, (o documentário é banhado de declarações como esta, o que o enriquece muito, parecem análises de cientistas políticos e sociólogos, mas, feitos por pessoas comuns, muitas vezes sem muita informação, o que nos surpreende) infelizmente esta é uma verdade, já ouvi casos verídicos de moradores dos morros em situações emergenciais que ligaram para o resgate e eles informaram que a ambulância não subiria até lá, que o enfermo deveria descer até o pé do morro... E toda a carência explícita só comprova como estas áreas são abandonadas e verdadeiramente bolsões de exclusão total.
Um dos pontos altos do filme são todas as declarações de um delegado do Rio que desmente, porém, fez parte do MR8 na ditadura militar. Ele fala sobre a força e finalidade da polícia, sendo ela um instrumento de repressão para a proteção da elite que é uma minoria no nosso país, e, que foi criada justamente para isso, e que enquanto a polícia atender aos interesses destes e não da massa e com a ajuda da massa, continuaremos a assistir os massacres diários. Que não há porque requerer um outro comportamento da polícia se esta é sua função, a de repreender e oprimir. Diz que o papel da polícia é garantir a segurança de uma sociedade injusta, dessa nossa sociedade! Discute sobre os problemas de corrupção e do acesso ao poder que alguns têm, sendo privilegiados e impedidos de serem punidos pela lei. Esse é o cara mais contraditório e revelador do documentário, ele sofreu as atitudes agressoras da polícia e fez parte da comissão de frente da mesma, anos mais tarde. Depois de meses que o documentário foi ao ar ele se candidatou a vereador pelo PT. Uma figura e tanto!
Pelas colocações dos membros da polícia percebem-se eles como simples instrumentos, chegando até ser mecanizados, trabalhadores comuns, como os operários de fábricas que apertam o gatilho com a mesma facilidade do apertador de parafusos. Fazendo deles tão vítimas quanto civis e traficantes que habitam os morros.
Um dos fatos chamativos é sobre a democratização das drogas comentada por Paulo Lins, o autor do livro Cidade de Deus. Ele conta que antes só os ricos usavam maconha, depois os pobres, que em 1985 começa o processo de democratização e acesso a cocaína, novamente gradual, primeiro os ricos e depois os pobres. Da ênfase para a situação nas favelas, antes, nem os traficantes usavam, só vendiam, essa situação muda na segunda metade da década de 80. Sabemos que quem mantém o tráfico é a própria elite que com a mesma facilidade que negocia seus luxos, exige a limpeza da sujeira e violência que a mesma causa e sofre. Situação dual não? O fluxo do comércio das drogas é estatisticamente comprovado sendo maior nos finais de semana, e é o principal alicerce da manutenção do negócio. Quem seriam os compradores? A playboizada que precisa de um bagulho pra curtir melhor a balada com a galera, os profissionais liberais respeitados como os médicos e policiais que para agüentar a jornada de trabalho usam um pozinho para dar um gás e segurar o tranco, a galera pobre sem instrução que almeja a vida das bonitonas e bonitões da novela das 9h., vivendo um conto de fadas de mentira, que vai na onda da moda de quem dita, têm aqueles que usam para fugir da dura realidade, enfim, motivos e casos nunca faltarão!
Todas as cenas são muito marcantes, tem a cena clichê e por vezes já vista sobre o armamento semelhante e até mais avançado dos traficantes em relação à polícia. Cenas com infratores na FEBEM. A que mais me chocou foi uma cena numa Casa/Escola chamada João Luís Alves para infratores ATÉ 12 anos, CRIANÇAS ATÉ 12 ANOS DE IDADE, frutos do próprio morro, parte das gerações nascidas lá, com suas vidinhas já pré-destinadas e sem escolhas (vide post Nascidos em Bordéis). Fabricamos assassinos, assaltantes, traficantes mirins e toda a sociedade é contribuinte, depois o alarde é voltado para fora com os garotos-bombas no Oriente Médio! Quanta hipocrisia e cegueira meu povo!
A cena final é genial, é um fundo branco que começa a ser preenchido com os nomes e data de nascimento e morte de traficantes, civis e policiais mortos nos morros.
O tráfico não substitui o Estado, mas, ainda sim, é mais eficiente em certos aspectos para a população civil do que a polícia e os outros braços estatais, isso é fato indiscutível.
O BOPE pode ser sim uma das divisões e grupos da polícia melhor treinados, no entanto, bem treinados para matar, para descumprir os direitos humanos, para treinamento prévio em situações futuras de guerras externas. Um grupo que assim como outros, é composto por membros honestos, íntegros, mas, jamais pode ser visto com a eficiência, transparência, do modo infalível como percebi em Tropa de Elite do José Padilha e como a mídia nos empurra a todo o momento com o único objetivo de justificar as ações tomadas pelo Estado e segurança geral em detrimento dos direitos fundamentais de uma parcela dos homens.
Este documentário é obrigatório, abrange todos os envolvidos e relata apenas as histórias contadas por eles, de quem vive e observa este cotidiano de perto, são os relatos dos seus pontos de vista mostrando a vida e a história do tráfico, do Rio, do Brasil, de trabalhadores marginalizados, pessoas comuns, da denúncia deste sistema que aplicamos como ideal e é tão pecador num rolo de filme com umas 2h. de duração.

2 Comentários:

Blogger guilhermeeee disse...

sensacional!
tenho que ver esses documentários agora!
eu não sabia que o Comando Vermelho tinha se formado desse jeito!
Estava eu lendo ''O que é isso, companheiro?'' do Fernando Gabeira, e é interessante, porque conta exatamente umas partes dele na prisão, e a mistura dele com os presos comuns. Só não sabía que daí sairía o CV!

21 de julho de 2008 23:52  
Blogger bala disse...

gostei do conteúdo do texto vou pegar os filmes para melhorar o meu conhecimento.
bala.

14 de junho de 2010 21:58  

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